"A Raposa e o Corvo"
MESTRE Corvo apanhou um queijo e com ele no bico foi para o tronco de uma árvore, desejoso de saboreá-lo. A Raposa que passou por ali e o viu, disse consigo:
- Desta vez é que eu vou comer queijo. Há tanto tempo que ele me apetece; hoje é que vai calhar.
E por baixo da árvore pôs-se a cumprimentar o Corvo e a dizer:
- Então, amigo, como passa? Está bem? Mas, o Corvo, para não deixar cair o queijo, não abrira o bico e apenas respondia com uns acenos de cabeça, delicadamente. A Raposa, que bem o entendia, prosseguiu na sua manobra:
— Ó meu distinto amigo, há tanto tempo não tinha o prazer de cumprimentá-lo, que estou encantado por tornar a vê-lo. É que o senhor é de facto uma pessoa muito simpática, com quem dá gosto conversar. Estou certa que entre a grande família das aves não há outro como você. Não é só a afabilidade do trato, é a beleza natural que tem, essa lindíssima plumagem e essa voz maravilhosa com que a Natureza o dotou.
Envaidecido com tantos elogios, o Corvo não sabia já o que havia de fazer, nem que posição tomar em cima da árvore. Era amabilíssima aquela Raposa! E ela, lá de baixo, continuava:
- Ó Sr. Corvo, há tanto, tanto tempo já que não ouço a sua voz! Se quisesse cantar um bocadinho para eu ouvir... Canta tão bem! Tem uma voz tão linda!
Desta vez o Corvo ficou seduzido e, sem poder resistir à tentação de fazer ouvir a sua voz, que a Raposa dizia ser tão linda, abriu o bico e começou a cantar. Precisamente quando abriu o bico, o queijo caiu-lhe e a Raposa, matreira, apanhou-lho e correu com ele na boca até desaparecer por detrás de um valado.
Quando se viu sem o queijo, o Corvo compreendeu que tinha caído numa ratoeira, mas já era tarde. Acreditara em todas as palavras da Raposa, justamente porque não tinha valor nenhum.
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