"A RAPOSA E A CEGONHA"

Teve um dia a raposa a fantasia
De convidar p’ra ceia a Comadre Cegonha.
A raposa é mesquinha: só havia
Umas papas de milho, uma vergonha...

E o pior deste caso
É que as mandou servir num prato raso.
Dona Cegonha bem estendia o bico:
Debicou, debicou – mas não comeu fanico,

E a raposa atrevida
Lambeu as papas todas de seguida.
Dias mais tarde, para se vingar,
Foi a vez de a cegonha a convidar.

"Com muito gosto", volve a outra a toda a pressa,
"Eu não sou de cerimónias, ora essa!"
e à hora combinada, à hora em ponto,
lá foi bater à porta da cegonha.
Entrou, cumprimentou muito risonha,
E achou o jantar pronto.

Do apetite não lhes digo nada,
Que a raposa anda sempre esfomeada,
E toda se lambia
Ao cheiro que sentia
Da vitela guisada...

Serviram-lhe o pitéu, p’ra a castigar,
Numa vasilha de gargalo esguio.
O bico da cegonha, esse, podia lá entrar...
Mas o focinho da comadre era de outro feitio.
Lá voltou em jejum para casa, corrida,
De rabinho entre as pernas e de orelha caída.

Manhosos aldrabões, o conto é p’ra vocês,
Já ficam avisados:
Há-de chegar-lhes, tarde ou cedo, a vez
De serem enganados.


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