"O LOBO E O GROU"

ESTANDO o Lobo a comer uma boa ovelha que apanhara naquela manhã, engoliu um osso, que lhe ficou atravessado na garganta. Sem poder tirá-lo, ficou aflito e impossibilitado de continuar a banquetear-se.

Começou então a caminhar pela mata, à procura de algum animal compadecido, que quisesse e pudesse livrá-lo daquele incómodo. Prometia a todos uma boa recompensa, porém, não encontrava nenhum que quisesse prestar-lhe aquele serviço.

Desanimava já de achar o enfermeiro que procurava, quando se lembrou do Grou, que tinha o pescoço alto e o bico muito comprido e podia acudir-lhe facilmente se quisesse.

Com a baba a escorrer-lhe pêlos cantos da boca, foi bater à porta do Grou. E com muita dificuldade o Sr. Lobo contou o que lhe acontecera e o que queria dele.

- Fique certo, amigo Grou, que o recompensarei pelo trabalho que tiver comigo

- rematou ele.

- Sente-se e abra a boca - disse o Grou. - Vamos lá a ver o que poderei fazer-lhe.

O Lobo obedeceu e, espreitando, o Grou lá viu o osso espetado na garganta. Meteu a cabeça na boca do Lobo e com o bico comprido apanhou o osso e tirou-lho. Quando se viu aliviado daquele incómodo, até os olhos do Lobo se riram de satisfação.

- Muito bem, amigo Grou, é um artista! - disse ele.

- E então o que vem a ser a tal recompensa que o Sr. Lobo tem para dar?

- Recompensa!? - replicou o Lobo. - Mas que recompensa melhor quer o Sr. Grou do que esta de eu não lhe ter cortado a cabeça quando a teve metida na minha boca?! Que grande ingrato! Fuja de me cair nas mãos outra vez!

O Grou ficou tão desconcertado com a falta de vergonha do Lobo, que durante dias só pensou no caso, concluindo que nem todos são dignos de ser ajudados.

 

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