"O Leão e o Rato"

TINHA vindo da caça, cheio de calor e cansado da marcha. Deitou-se à sombra de um grande carvalho e assim, estirado no chão, o Rei dos Animais parecia ainda maior. Adormeceu e mesmo a dormir era imponente e majestoso.

Como tudo estava silencioso e o sol dava a todas as coisas uma grande calma, um grupo de ratinhos muito vivos entendeu que podia vir para fora da toca e sem o menor perigo comer, gozar o sol e divertir-se. Assim fizeram e nem o grande Leão adormecido lhes meteu medo.

Brincaram, fizeram rodas e acabaram por andar em tais corridas que, em dada altura, sem reparar, passaram sobre as patas do Leão, acordando-o.

- Patifes! - gritou ele indignado. E com uma das patas agarrou um ratinho.

Os outros fugiram espavoridos e aquele ficou a tremer, debaixo da pata do Leão.

- Sr. Leão - suplicou ele numa vozinha muito fina e aflita - não me mate que o mal que eu lhe fiz foi sem querer! Deixe-me ir para ao pé dos meus pais e dos meus irmãos e juro-lhe que se algum dia precisar de mim farei tudo o que puder para ser-lhe útil.

O Leão que estava satisfeito e bem disposto, achou graça ao Ratinho e deu uma gargalhada.

- Com que então, se eu precisar de ti podes ser-me útil? E em que poderá um Rato servir um Leão, meu pequerrucho?

E, sempre a rir, levantou a pata e deixou ir o Rato em liberdade, sem lhe fazer mal nenhum.

Passaram dias e, andando à caça, o Leão foi cair numa grande rede, que era uma armadilha feita por uns caçadores. O Leão tentou sair da ratoeira, arremeteu contra as malhas de corda muito grossa, na esperança de romper a rede, mas nada conseguiu. Quando se convenceu de que lhe era impossível livrar-se da armadilha, deu um rugido tão grande que a floresta estremeceu. Ouvindo-o, o Ratinho reconheceu logo a voz do Leão e, lembrando-se da promessa feita, correu para fora da toca à procura do amigo que lhe poupara a vida.

Foi dar com ele, desesperado, dentro da rede. Vendo-o, o Leão rugiu desanimado:

- Em que podes tu valer-me, pequeno e fraco como és...?

O Rato é que não desanimou e, de um salto, atirou--se à rede e começou a roer a primeira corda que agarrou, enterrando-lhe bem os dentinhos agudos. Com a ânsia de salvar o Leão, em breve roía a primeira corda, rompendo uma malha. A seguir rompeu outra e o Leão pôde meter uma pata pelo buraco, que abriu mais. Meteu depois a cabeça e a seguir todo o corpo, vindo agradecer ao Rato o grande benefício que lhe fizera, em cumprimento da sua promessa de gratidão.

Quando os caçadores vieram, apenas encontraram na rede a prova de que, grandes ou pequenos, todos nós podemos ser bons e úteis.

 

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