"O Guizo e o Gato"
“Meus ilustres Roedores,
Está aberta a sessão.
Inscrevam-se os oradores”
Pediu, cortês, Dom Ratão.
Dom Ratão, o presidente
De tão grande reunião,
Sem outro orador presente
Pôs ele próprio a questão:
É forçoso descobrirmos,
Com astucia e recato,
A forma de não cairmos
Nas garras do feroz gato.
De justiça, nada entende
De direito, também não.
Nossa liberdade ofende
Na primeira ocasião.
Não tem moral, nem quer ter,
Pois, sendo rato pacato
E sem guerra lhe fazer,
Ele é sempre um cruel gato.
Não está certo, nem é justo
Que se faça muito fino
E nos pregue cada susto
E seja até assassino.
Nossos irmãos vai comendo,
Sem piedade, sem respeito,
Mesmo outra comida tendo,
Digam lá se isto tem jeito?
Não tem jeito, nem tem graça
Que, tendo tão meiga voz,
“Miau”, seja a desgraça,
Desgraça de todos nós.
Quem é que nesta assembleia
De ratinhos em apuro,
Nos dá uma boa ideia
Que nos ponha em seguro?
“Põe-se” – sugeriu um rato
Com ar de muito juízo.
No pescoço desse gato
Um grande e sonante guizo.
E tal guizo ao tocar
Chamará nossa atenção
E assim não vai apanhar
Nenhum rato em distracção.
“Apoiado (como um hino!)”
Gritaram todos contentes,
Só um rato pequenino
Pediu silêncio entredentes.
E ladino, mas com siso,
Perguntou o jovem rato:
“Mas quem é que põe o guizo
No pescoço desse gato?”
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