"A GRALHA IMPOSTORA"
A menina Gralha achava-se feia deveras com a plumagem que Deus lhe dera. Invejava, desde novinha, as penas formosíssimas do pavão e há anos já que guardava cuidadosamente quantas penas de pavão podia arranjar.
Até que um dia, tendo já uma boa porção, adornou-se com elas e foi dar um passeio até ao reino dos pavões, para ver como era acolhida por eles. Por entre as penas do pavão, dispostas ao acaso, conforme havia podido, aqui e ali apareciam as penas dela, mas a Gralha, envaidecida com o adorno com que pretendia embelezar-se, nem percebia a figura grotesca que fazia supunha-se realmente muito mais bela com aquele fato alheio.
Mas quando chegou perto dos pavões é que principiou a compreender o ridículo em que estava. Os pavões olharam-na, rodearam-na, miraram-na atentamente e, por fim, começaram a picá-la tão furiosamente, que lhe arrancaram não só as penas postiças que levava, como algumas das suas.
- Desaparece da nossa vista! - bradavam eles, encolerizados. - Impostora! Não tens vergonha da figura que estás fazendo?!
Coitada dela! Vergonha, tinha agora, que percebia o grotesco em que caíra, mas nem fugir podia, porque, ao livrar-se do bico enraivecido de um pavão, ia cair no de outro.
Por fim, lá conseguiu chegar a casa, cansada e cheinha de vergonha.
Mas os parentes, quando a viram, sabedores já do que ela fizera, também a repeliram.
- Se não te tivesses envergonhado dos velhos amigos, ainda hoje os tinhas e não serias agora escorraçada pela própria família. Que esta lição te fique de memória para sempre e que nunca mais voltes a querer parecer o que não és. Cada um é como é e vale conforme as suas acções.
Desde aquele dia, de triste recordação, a menina Gralha nunca mais sentiu o desejo de se disfarçar com roupas alheias.
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