"As Duas Cadelas"

ESTANDO à espera dos seus filhos e não tendo ainda casa para eles nascerem, D. Cadela Preta foi bater à Porta da D. Cadela Branca e deu-lhe parte da preocupação em que estava.

- Imagine, tenho os meus meninos a chegar por estes dias e ainda estou sem casa!

- Mas isso é um desastre - respondeu a D. Cadela Branca. - Se eu me visse nessa aflição nem podia dormir de noite! Olhe, quer vir para a minha casa?

- Que maçada, D. Cadela Branca! A senhora não tem espaço para receber hóspedes...

- Isso não faz mal. Vou passar uns dias fora e confio-lhe a casa, até que a senhora tenha as suas coisas em ordem.

- Ah! muito obrigada, D. Branca! Eu nem me atrevia a pedir-lhe um favor tão grande...

- Pois fique à sua vontade, até que os seus filhos nasçam e possam andar consigo.

Depois daquele oferecimento, a Cadela Branca foi para fora da sua casa e a Preta instalou-se lá, à espera dos seus pequeninos.

Estes nasceram poucos dias depois e a D. Cadela Preta acomodou-os optimamente em casa da amiga.

Passaram alguns dias e como a D. Cadela Branca precisava da casa e os filhos da D. Preta já deviam ter crescido o suficiente para a acompanharem, ela apareceu lá e disse delicadamente à sua hóspede que tinha necessidade da casa.

- Tem toda a razão, D. Branca - replicou-lhe a Preta - e o meu desejo era já ter saído, mas os meus filhos são ainda tão pequeninos, que eu receio que ainda sejam fracos para andarem comigo. Se pudesse deixar-me estar cá mais uns dias...

- Esteja então mais uns dias - acedeu a dona da casa - mas não fique muito mais, porque eu também já não posso continuar onde estou.

- Vá descansada, que para a semana já me vou embora.

Passou a tal semana, mas a D. Cadela Preta não saiu da casa da amiga e esta teve de voltar a pedir-lhe que saísse.

- Isso era o que a senhora queria! - respondeu-lhe a outra, ameaçadora. - Havia de ter graça se eu, depois de ter casa para mim e para os filhos e depois de estar tão bem instalada, ia andar para aí à "toa", outra vez! Já cá estou dentro e agora isto é meu. Experimente tirar-me de cá à dentada, a ver qual de nós leva a melhor!

A D. Cadela Branca, que era bem educada, ficou a olhar indignada para a atrevida e voltou-lhe as costas, sem dizer palavra, porque bem sabia que mau é emprestar aos que julgam que por terem uma coisa algum tempo, podem apossar-se dela para sempre.

 

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