"A Cigarra e a Formiga"
No Inverno há sempre fome,
Mas não chega ao formigueiro:
Trabalhámos todo o Verão,
Temos bem farto o celeiro.
ISTO cantava uma formiga ladina, que à frente de um grupo delas carregava para o sol os grãos que tinham acumulado durante o Estio. Chovera muito na véspera, havia já dias que se não via o sol, e agora, como havia uma réstia dele, quente e brilhante, as formigas tinham resolvido trazer cá para fora as suas reservas para as enxugar. Previdentes e boas donas de casa, as formigas não descuidavam os seus trabalhos.
Andavam naquela faina e a da frente do rancho cantava pela décima vez:
Trabalhámos todo o Verão,
Temos bem farto o celeiro.
quando lhes aparece a D. Cigarra, trémula de frio, encolhida de vergonha:
- Ó vizinha Formiga, eu vinha pedir-lhe o grande favor de me emprestar umas migalhas e uns pozinhos de farinha.
- Mas, então porquê? - perguntou a Formiga que bem sabia como vivia a D. Cigarra.
- Ora, porque, vizinha... Porque estamos no Inverno e eu não tenho nada em casa para me sustentar.
- Mas isso foi um descuido sem nome. Não sabia que o Inverno havia de vir?
- Pois sabia... - respondeu a pobre Cigarra com a voz mal segura.
- Então que fez no Verão que não se acautelou?
- Cantei, vizinha, cantei. Passei o Verão a cantar, com esta linda voz que Deus me deu...
- Ah! cantou?! E soube-lhe bem? - exclamou a Formiga, pousando o carrego no chão e colocando as mãos na cintura tão delgadinha, que quase a agarrou toda. - Pois então agora experimente dançar, que também é muito saboroso.
E retomando o seu carrego, seguiu com as companheiras para a clareira onde estavam expondo ao sol os mantimentos, querendo dizer com isto que desprezava a Cigarra, que só pensava em cantar e em folgar, esquecida de que mal anda quem não faz por se manter a si mesmo e espera que os outros o ajudem.
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