"O Cavalo e o Veado"

MESTRE Cavalo tinha o costume de tomaras suas refeições no campo, em companhia do Sr. Veado, um cavalheiro muito elegante e aristocrático, que usava chifres muito longos e graciosos, de um feitio caprichoso. Quando ambos estavam de cabeça baixa, colhendo as ervas de que se alimentavam, o pobre do Cavalo apanhava muitas vezes com o lindo ornamento do Sr. Veado. Magoava-se, queixava-se, e o

Sr. Veado dizia-lhe delicadamente:

- Perdão, foi sem querer!

O Cavalo afastava-se, a ver se podia comer sossegado, e logo o Sr. Veado ia atrás dele, implicativo e impertinente. Recomeçavam a comer, mas, mal se precatava, o Cavalo apanhava outra vez com os enfeites do Sr. Veado.

- Ah! perdão! foi sem querer.

Mestre Cavalo estava aborrecido e farto daquela história, que ele já sabia de cor: apanhar, ouvir um delicado "ah! perdão! foi sem querer", continuar a apanhar e por fim não comer. Com toda a sua delicadeza, o aristocrático Sr. Veado não o deixava tomar as refeições e ia-o escorraçando sempre.

O Cavalo teve então uma ideia, que lhe pareceu esplêndida. Ali perto do bosque morava o Homem, inteligente e manhoso, que podia livrá-lo de tão incómoda companhia. Tirou-se dos seus cuidados, limpou os ferimentos que o Veado lhe tinha feito, escovou-se, arranjou-se e foi bater à porta do Homem.

- Que me queres? - perguntou este.

- Venho pedir-te um favor. Salta para as minhas costas, para eu te levar onde está o Veado, porque ele não me deixa comer, todos os dias me empurra para fora do pasto e me faz os ferimentos que vês. Tu, que és inteligente e sabes fazer as coisas, é que podias livrar-me dele. Levo-te onde ele está e acabas-lhe com a vida. É isto que venho pedir-te.

- Pois sim - acedeu o Homem. - Vamos lá!

E montou no Cavalo para ir procurar o Veado.

Mas depois de estar em cima do Cavalo ocorreu-lhe uma ideia.

- Cavalo amigo - disse-lhe ele - mato o Veado e livro-te desse patife, mas tu ficas ao meu serviço, porque és óptimo para montar.

Ouvindo isto, o Cavalo ficou triste, mas já não podia voltar atrás: tinha um freio na boca e o Homem em cima do lombo.

E eis como ele, julgando que melhorava a sua sorte, ao pedir o auxílio alheio a tornou ainda pior.


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