"O Cão e o Lobo"

HAVIA já dias que o Lobo não comia. Andava magro e triste, sem saber o que fazer à sua vida para matar a fome. Nem um cabritinho aparecia esquecido, afastado do rebanho, ali por qualquer monte! Triste vida a de lobo!

E um dia encontrou-se com o Cão, gordo e bem tratado, que em cada parte do corpo mostrava a abundância em que vivia. Ao ver o Lobo tão fraco, o Cão nem teve vontade de lhe rosnar, ameaçador, como era seu costume. E compadecido, perguntou:

- Mas que faz você para andar nessa desgraça?

- Por mim não faço ideia - respondeu o Lobo com voz fraca. - Não me aparece nada para comer, e é isto que vê.

- Olhe, amigo Lobo - disse o Cão num ar conselheiro — o que é preciso é saber viver. A gente com maus modos não leva a melhor, tudo o que é bom foge de nós. Porque não se resolve a fazer como eu e acabar de vez com esse mau hábito de atacar, de morder e de matar? Deixe-se de ser fera, domine a sua maldade, afeiçoe-se a alguém e verá como logo arranja quem o queira e o sustente, sem nunca mais ter de preocupar-se com o que há-de comer: aparece-lhe tudo sem trabalho. Veja como eu estou gordo e forte e como o meu pêlo é luzidio. Siga o meu exemplo!

Ouvindo aquilo, o Lobo disse consigo que o Cão tinha razão e que ele era um estúpido por ainda não ter pensado assim.

Porém, olhando melhor para o Cão, para ver bem o asseio e a fartura em que ele vivia, reparou num vinco que lhe amachucava o pêlo à volta do pescoço; achou aquilo esquisito e quis saber o que era.

- Isto não tem importância - respondeu o Cão.

- Mas dá-me que pensar e gostava de saber o que é - insistiu o Lobo.

Pois se tem muito interesse, aí vai a explicação: isto é feito por uma coleira com que me prendem de dia, de maneira que eu não incomode nem morda ninguém.

- O quê? Então o Sr. Cão não vai para onde quer, nem faz o que lhe apetece?

- Isso não.

- Então desisto do seu conselho. Se para comer tenho de perder a minha liberdade, prefiro andar mal tratado e passar fome, mas ser livre, ser senhor de mim até à morte. Adeus, Sr. Cão, que o seu bem-estar é muito caro.

Dito isto, correu pela mata e desapareceu entre as árvores, ficando o Cão a pensar que talvez fosse melhor a fome sem coleira que a fartura com ela.

 

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