"As Aves, os Animais da Terra e o Morcego"
As aves que voam no céu e os bichos que andam na terra atacaram-se certo dia e travaram uma batalha encarniçada.
O Morcego, que tanto pode parecer um rato como um pássaro, porque tem quatro patinhas e duas membranas como asas, que lhe permitem voar como as aves, receoso de perder a vida na luta, não tomou partido por nenhum dos grupos. Além disso, como não sabia qual a parte que sairia vencedora, não lhe convinha desagradar a nenhuma, e tanto andava no chão, misturado com os bichos da terra, como voava no ar, confundido com as aves do céu. Andava, como nós dizemos em linguagem de homem, a jogar com um pau de dois bicos.
Por fim, a sorte inclinou-se para as aves e lá apareceu, misturado com elas, a bater as asas de pele, muito contente, tomando parte nas manifestações de alegria pela vitória que se faziam no reino dos animais voadores.
Mas estes é que bem tinham notado a conduta hipócrita e perigosa do Morcego e levaram-no a julgamento, apontando-o a toda a nação das aves como um covarde e um burlão, metade ave, metade bicho, que tentara enganar as duas partes, só se decidindo por uma quando viu que seria ela a vencedora.
Na terra, os bichos julgaram-no também pela mesma razão e também o condenaram a ser expulso de entre eles, como falso e traidor.
Repudiados da terra e do ar, é desde esse tempo que os morcegos se escondem durante o dia e só aparecem ao anoitecer, envergonhados da sua acção, numa vida à parte, que não é de bicho nem de pássaro.
Não tomando lealmente partido por nenhuma das partes, o Morcego acabou por ser desprezado pelas duas.
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