"A Ama e o Lobo"
AVIA uma ama que tinha a seu cargo um menino muito rabugento, que chorava de noite e de dia. Quando já não podia ouvir o berreiro, a ama costumava dizer em voz alta:
- Cala-te! cala-te, rapaz, ou atiro contigo pela janela fora, para o lobo te comer!
Ora o Lobo passava ali muito, e tantas vezes ouviu a ameaça, que numa noite de Inverno, em que andava cheio de fome, ouvindo o menino a chorar e a ama a gritar que o atirava ao Lobo, deixou-se ficar à porta, de olhos fitos na janela, à espera de ver o menino atirado por ali fora de um momento para o outro.
Esperou, continuou a ouvir chorar e a ameaçar e foi dizendo consigo:
- Estou em maré de sorte. O garoto não se cala e esta noite vou ter de jantar...
Foi esperando, mas da janela não havia meio de sair nada, a não ser a voz do menino a gritar e a da ama a ameaçar. A neve caía e o Lobo tremia de frio. Por fim desistiu de esperar e pôs-se a caminho, furioso e cheio de fome.
Ao vê-lo tão desapontado, a Raposa indagou:
Mas que te aconteceu, vizinho Lobo, que vens tão abatido!
Sabes lá tu o que me aconteceu! - respondeu o Lobo. - Aqui perto há uma mulher que tem uma criança que chora todo o dia e que ela ameaça de deitar à rua se não se calar. Pois há horas que o rapaz está a chorar, que ela está a ameaçar e que eu lá estou à espera, a cair de fome. E sou tão estúpido que ainda acreditei que uma mulher fizesse um dia aquilo que diz!
A raposa sorriu-se e, passando a pata pelas costas do Lobo faminto, disse-lhe:
- Isso nem parece teu, amigo Lobo! Pois tu não sabes que as mulheres exageram sempre?!
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