Participantes em Poesia
(não classificados)
 
o mar não sabe nada

reconheço ao longe no horizonte molhado uma ilha remota
e o aceno demorado na melancolia da palmeira ondulante
o ouro reflectido na areia é como um lençol de seda
e a espuma da rebentação é a dobra do tecido sobre alguns ombros macios
de mulher adormecida na perfeição do voo a pique das aves marinhas
com as asas rumorejantes abertas a sombrear os corpos amolecidos
espraiados no sossego do isolamento com as caras pegajosas a escorrer o suco
lascivo da árvore de frutos maduros vergada sob o peso da fecundidade
e as conchas rugosas que guardam imagens de eternidade são espelhos partidos
que turvam a memória de uma infância que não se quer repetida onde se apagam
os ecos do passados e se criam novas melodias e novos búzios sussurram felicidade

mas o mar intransigente eleva já abismos e roda redemoinhos assustadores que se abatem sobre o estômago contraído e guarda já nas suas entranhas os mostrengos alados prontos para os seus saltos acefálicos ao menor ruído perturbador

o mar não sabe nada

navegar as águas revoltas
desprender a vela serpenteante
recolher os remos
encostar a cabeça ao mastro
derivar por entre dias iguais
esquecer a ilha
e aportar quando encalhar

aportar nas tuas mãos

as tuas mãos são lindas
os teus dedos são feitos de tábua
pousa-os sobre os meus nós
enlaça-me entrança-me nas linhas
construiremos uma jangada

não sei muita coisa talvez nunca chegue a mudar o mundo
talvez nunca molde um pedaço de barro humano
não sei
não sei onde fica o porto onde aportam os navios felizes
não sei de cor o lugar onde se apaga o passado
não sei o colo protector a redoma de vidro para os afortunados
não sei nada
não me importa
não me importa mesmo nada

tenho uma jangada e vou cobri-la com pétalas da mais bela flor de estufa

Schopoiévsky
João André Asseiceira Moita

 

"SER CRIANÇA"

Oh criança sorridente
da vida risonha e alegre
não deixes perder a esperança
do caminho que te abrem.
Não deixes perder a alegria
da criancice contínua
dum Mundo de brincadeiras.
Sempre tu serás criança
sem quereres armas nem guerras
se não te ensinarem a matar.
Oh criança bela que cantas
canções de amor e de beleza
não te deixes crescer e fazer homem,
conserva-te sempre criança
porque as crianças não matam.
A criança não é homem
as crianças não são feras.
Oh criança sorridente
diz que não tens fome
tens direito a crescer alegre,
não tens culpa de seres criança
não queiras matar nem morrer.
Criança que saltas e cresces
luta pela vida que mereces
não queiras ser homem depressa
para não deixares de ser criança
e deixares de brincar sem maldade
para passares a matar com crueldade.
Oh criança alegre faz dos homens todos crianças

Lofarijo
João Lopes de Faria Sardinheiro

 

Unreal

É imensa a estranheza
quando se reconhece que
nada é o que parece ser;
tornando-se uma surpresa
as mentiras do nosso ver.

O que é dito por muitas bocas
com sentido e sabor delicado,
muitas vezes são simples dizeres
unicamente para puro agrado.

E o que se vê tantas vezes
como verdadeiro e único,
poderá ser mais uma ilusão
criada pelos próprios sentidos.

E é tão triste...
E é tão deprimente saber-se isto,
mas triste mais ainda é
o colocar d'uma eternal venda.

Somos uma câmara fotográfica
- Vemos o mundo como tal –
E são as supostas fotografias
que chamamos de real.

Somos subservientes do incompleto,
e com ele nos completamos,
pensamos que seja o certo,
e com isso nos atraiçoamos.

As sensações são as chaves
das portas da nossa mente,
bem como as entraves que
nos enganam cegamente!

Selene
Maria do Céu Lopes de Brito Vitória

 

Invocação à lua

Ó lua onde refugias
o homem solitário
que por ti vagueia?

Ó lua porque sinto
teu sangue lavando-me
o corpo e transfigurando-o?
Porque não rebentas
os espinhos dos roseirais
que a ti toda envolvem?

Conta-me teu pior crime!
Conta-me quem te castigou
dessa terrível maneira!
Conta-me...
Que pecado fora cometido.
para pagares tal sentença?

De quem as vozes afrontas-te,
para seres retalhada
sem dó ou piedade
sob o reflexo da pia
onde de perto te vislumbro?

E as metades negras,
mortas, escondidas e esquecidas?
Para onde viajam elas,
enquanto enganas
olhos escuros d'miragens?

Que seria de ti,
se a lâmina da foice,
com que cortas as nossas
crescentes silvas cegasse?
E que seria de nós?

E que seria de ti,
se teu peito fosse enfim
aferrolhado pelo belo luminoso
espartilho que te cobre?

Vagueias também tu
na sombra penosa,
arrojada em tuas pisadas.

És só hoje ao meu ver
o castigo mais visível.
O reflexo de todos nós.

Selene
Maria do Céu Lopes de Brito Vitória

 

O meu mundo


O meu mundo de confusão
Onde nada de bem acontece
Acontece o mal
O meu mal

Neste mundo de terror imenso
Onde tudo de mal me acontece
Onde o amor não aparece
E o ódio me endoidece

Não sei como acabar
Com esta confusão
Não há um bom caminho no meu coração

Um caminho que me leve
Para um bom mundo
Como o da paixão


Carqueja
Rodolfo Manuel Machacaz Colhe

 

O meu mundo


O meu mundo de confusão
Onde nada de bem acontece
Acontece o mal
O meu mal

Neste mundo de terror imenso
Onde tudo de mal me acontece
Onde o amor não aparece
E o ódio me endoidece

Não sei como acabar
Com esta confusão
Não há um bom caminho no meu coração

Um caminho que me leve
Para um bom mundo
Como o da paixão


Carqueja
Rodolfo Manuel Machacaz Colhe

 

Os gostos da existência

A vida é constituída por sub-reacções;
sub-reacções suscitadas por reacções;
reacções suscitadas em sentimentos;
sentimentos envolvidos em momentos;
momentos constituindo acções;
acções futuras, presentes ou passadas;
sempre todas elas carimbadas ou por carimbar,
ela sensibilidade de cada um.

Sentimentos são seu fruto;
e nós provamos de tudo um pouco;
gostos agres, gostos doces;
por vezes vindo aos pares;
baralhando o paladar;
ou esgotando-o de tanto o usar.

E onde se alojam esses sabores?
Nos espelhos da nossa alma.
No labirinto do nosso coração.
Nas entranhas da nossa carne.
Nos corredores da nossa mente.

E que poder tem sobre nós?
sobre a alma, o coração, a carne e a mente?

Gostos agres que vão selando o olhar;
gostos doces que estimulam o sorriso,
que não querem caber na nossa caixinha,
ansiando por uma libertação;
por um grito de liberdade;
querendo sempre deixar a sua marca.

Não se querem guardar na mente;
não se querem guardar no coração;
tem bichos-carpinteiros;
querem viver para sempre presentes;
e não aceitam o seu esquecimento;
e sem nos dar por conta,
fogem por um distraído suspiro,
em tons de confissão.

Libertam-se entre gritos,
ao sentirem corações longínquos,
para que se consigam escutar,
através de toda a exaltação.

Libertam-se em beijos;
libertam-se em calmas palavras,
ao sentirem irrigações perto das suas;
não sendo preciso empregar
palavras bradadas,
apelando ao entendimento,
apelando que os oiçam,
e se preciso for,
apelando que os ajudem.

Mágoas, alegrias, tristezas,
ai que estas também se cansam,
de viver presas em espelhos negros;
de viver assombradas em único ser

Procuram então corações próximos,
onde possam saltar como parasitas,
alimentando-se ao sugar seu paladar.
Procuram encontrar um novo refúgio;
quem sabe talvez este mais acolhedor,
e de muita preferência,
muito menos questionador.

Selene
Maria do Céu Lopes de Brito Vitória

 

Flores de Abril

Era abril, e o tempo sorria nessa tarde!
E as Rosas; estalavam de ardor naquele Vermelho.
Não resisti...
Levei duas para mim,
Regozijei-me...
Não sei se, das rosas, ou do passeio.
E o tempo brilhava; intensamente e claro…
E o nosso olhar,
Se perdeu naquele Outeiro.
E as Rosas que eu guardei furtivamente;
Ainda guardo delas o seu cheiro.

Primavera
Maria Lucinda Paciência Agostinho Moedas

 

Plenitude

A vida
É um bago de uva redondo!
A vida
É uma gota de sangue quente
A vida
É a esperança brilhando nos olhos
A vida
É aquele beijo que trocamos ardente
E a nossa vida, é o nosso mundo;
São rosas e espinhos, pintados a ouro
São pássaros voando no céu azul,
trazendo no bico
mensagens do mundo todo.

Vindima
Maria Lucinda Paciência Agostinho Moedas

 

Sayonara

Não. Não é chegada ainda
A hora da separação.
Enquanto este instante
Perdurar
Quero embriagar-me
De infinito
Nos teus olhos
E perder-me
Na ternura dos teus braços
Depois
Quando chegar
O momento da verdade
Colherei dos teus lábios
A promessa
De que no nunca
Me esperarás.

Ludovica Petrusque
Maria Luísa Mascarenhas Gil Barreiros

 

Momento

Um agónico desespero
Me atormenta
A tristeza me ensombrece
Porque em mim mora a saudade
Na voz do mar
Eu escuto de mansinho
O teu nome
Escorregar na crista das ondas
E beijar a areia
Que me cobre os pés...
O nosso amor
Soluçando vibra num búzio
Esquecido
Ecoa nos abismos de luz
Perde-se nos mistérios da noite
Dilui-se nos segredos
Do luar!

Ludovica Petrusque
Maria Luísa Mascarenhas Gil Barreiros

 

despenho-me
pelos abismos angulosos
das palavras
rumo às metáforas
que escondem os sentidos
se perco a ironia
nos regatos sinuosos
e inúteis das lágrimas
desnorteio-me sem remédio
nos labirintos de mim

Ludovica Petrusque
Maria Luísa Mascarenhas Gil Barreiros

 

Balada Azul ou Sophia’s Blues

 

O pintor procura o tom certo
Para o olhar inalcançável
- de Sophia
No azul-indómito
Das suas pupilas, O óleo
Do mistério helénico.
Amorosa recreação da tez;
Veneração da essência
- que a transcende.

Azul-lembrança
Clareado pela distância,
Como aqueles montes acolá
Que amanhã percorrerei
-Só

Sempre que sopra a nortada,
A limpidez azul-celeste
Evoca memórias infantis
De florestas encantadas
À beira de fiordes,
Onde árvores resinosas
Luzem cabeleiras de líquenes.
Aí caminhaste feliz
Sobre um manto de musgos,
Sorrindo às fadas amigas
E aos cogumelos mágicos.
O teu toque primaveril
Despertava a seiva
E a tua voz unia-se ao coro
Álacre e ruflante das aves.
E colhias morangos silvestres
Junto de cantarolantes riachos;
E brincavas às escondidas
Com lebres grandes como cães.

Como te enamoraste
Desta paisagem meridional,
Onde a sensualidade e o vinho
Perpetuam o estio?
Resistindo sobre esta terra sáfara,
As árvores cansadas de sonhar
Arreiam as suas nemorosas almas,
Que se metamorfoseiam em mariposas;
Fugindo às incautas pisadas,
Erguem-se em multicolores revoadas:
Flocos de silêncio,
Etéreas carícias.
Nostalgia da perfeição
Dos momentos que perdemos.

Fúteis ambições exilaram-nos
Dessa ousadia de frescura
Singela,
Anódina.
Êxtase: asas
Poesia: voo
Ritual: prazer
Só tínhamos um culto:
A biografia íntima
- De Gaia.
Ecos desse amor telúrico
Insinuam-se nos búzios
Dos meus ouvidos,
Ensinando-me cânticos
Em teu louvor.

Depois encantámo-nos
Espreitando as palavras
Que cortejam e fazem amor
Com as melodias,
Gerando híbridos férteis.
Calma, os versos precisam respirar,
Como respiram os cantores
E os bebés a dormir.

Mostraste-me a corda iridescente
Das palavras que entrelaçaste
Para escapares ao abismo
Do desamparo resignado e
Das solidões encaixotadas
No frio aprumo do concreto.
Sobreviver aos sonhos
E às esperanças
É pior que sobreviver
Aos nossos filhos...

Tu que afirmaste
Ser da raça
Dos que mergulham
- De olhos abertos,
E mergulhaste
Nas águas azul-turquesa
Do Mar Mediterrâneo.
Que esse berço profanado
De antigas civilizações
Te traga marés assombradas
De arrebatadores mitos,
Onde a cruz e o crescente
Conspiram para matar
O nosso amor pagão.

Resoluta, abres o corpo
AO lânguido entardecer
E embalas a saudade
- adoptada
na concha do teu regaço.
Cobre-a com rendilhados
De espuma salgada,
Que o vento carrega
Na minha direcção.
Namoro marinho:
Estrondosa genuflexão
Em cada render das ondas,
Que a teus pés depositam
Tesouros das profundezas.
Os mais resplandecentes
Terás que procurá-los
Na escuridão abissal
-De onde não podem sair.
Quiçá possas trocá-los
Pelo incerto porvir,
Quando dedos coralinos
Nos tactearem as costas
E arrepios de maresia
Entranhada
Revelarem a nossa identidade
Apátrida
Argonauta

Ígneas pétalas
Fecham-se no céu,
Fazendo assentar a rutila fuligem
Aguarelada de rosas e de carmins.
O girassol já pode descansar
A sua vassala elipse solar.
Recolhe-se a seiva às raízes.
Não vá congelar
Com a assustadora promessa
De alforria no hálito
Frio da noite.
Do outro lado do mundo,
Toda a ansiedade
Numa gota de água
Que luta por se libertar
De um glaciar moribundo
A Terra connosco
Suspende a respiração
- Porque o ciclo da vida
Emudece aos que se opõem
À sua sapiência intuitiva.
- Porque o mavioso sortilégio
Não pode ser quebrado!
No húmus primevo
Está guardada a origem,
A essência e o destino
Da carne e do verbo. *

Preia-mar:
o abraço líquido
Do séquito lunar.
Âmbar-dourado:
Lágrima cristalizada
Do olho celeste
- Padroeira dos amantes;
fiel companheira
dos cansados viandantes.

Tu que nasceste para a paz,
Ainda te vestes de algas,
Sentindo os perfumes
errantes
Dos poemas derramados
Sobre a areia alisada
Que foi antanho moldada
Pelos corpos nus
- Dos amantes.

Ausentaste-te da nossa praia,
Recusando o reencontro
Onde velas aportam espadas,
Vergando vontades imaculadas.
Regressarás num dia azul,
Quando os guerreiros abjurarem
As vis orgias de sangue ferido
E a vida finalmente honrarem
Nos risos fraternais
E no pão repartido;
Quando as sereias cantarem
Os teus versos às crianças,
Adormecendo os inocentes
E mantendo-nos em vigília;
Quando ninguém te distinguir
Dos elementos que te inspiraram.
Boa viagem, Sophia!

(Respeitosamente dedicado à memória de Sophia de Mello Breyner)

*A raiz etimológica da palavra “humano” significa “que provém do húmus”

 

Andarilho
Paulo Alexandre Barreiros Neves

 

O Aeroporto à Noite ou No Sul é um Descanso

Os amantes despedem-se com beijos sôfregos;
Os solitários cobiçam e o fotógrafo rapina.
E há lágrimas
Difíceis
De interpretar

Os altifalantes perturbam a turba sonolenta.
Barricados pela bagagem amontoada
(a única muralha que eu respeito),
Anarquia na prostração.
Iridiscente celebração da diversidade humana
E do desprendimento lúdico.

Blá, blá, blá, Babel.
Encontros desconcertantes
De vizinhos anónimos
Nos antípodas aqui
Revelam-se camaradas
De circunstância.

Responsáveis pela limpeza
Tomam de assalto o espaço,
Não dando tréguas à quietude.
Avançam disciplinados
Como um pequeno exército
Armado com máquinas ruidosas
E com um cocktail de detergentes.
Parece que me arrancam as pestanas
Para com elas varrerem a poeira do sono.

Exaustos pelo bulício das noites londrinas,
Os foliões nem se incomodam.
Há os que preferem o artifício tecnológico,
Ligando-se aos CDs, DVDs e à Internet,
Fogem para ambientes telemáticos
Feitos à medida da sua alienação voluntária.

Malabaristas e músicos
Acalmam insónias
Com os seus encantamentos
- exibicionismo altruísta

Um grupo de musculados ucranianos,
com um misto de curiosidade pueril
e de coragem etílica,
assedia uma mulher-polícia.
Esta, simpática, consente
Em pousar com eles
Na foto que os envaidecerá
Até à erosão da memória,
Ou que a morte os separe.

Peço informações geográficas a uma inglesa.
Ela responde-me com aridez condescendente,
Como se estivesse a fazer telemarketing para crianças.
Interceptou o meu olhar brejeiro.
Ocorreu-me responder-lhe em português
Que não lhe estava a admirar as mamas,
Fora apenas um reflexo condicionado
De quem está habituado a procurar auxilio
Nas legendas (televisivas) à altura do peito.

Presas em redomas de atenções,
Mulheres muito belas
Esvoaçam olhares vagos,
Fingindo indiferença
Às quecas oftalmológicas.
Aqui a arte do engate
Tem poucos cultores dignos.

Algumas garotas menos atraentes,
Sentindo a segurança do bando,
Fingem superioridade
Ousando troçar da situação
Ameaçadora para os seus frágeis egos.
Alcandoradas no riso forçado,
Conhecem-lhe o prazer
De seduzir e de irritar.

Muitos jovens carregam o livro da moda,
Fonte de fama e de fortuna
Para um qualquer charlatão.
Querem, assim, mostrar ao mundo
Que têm o intelecto afinado
Pelo que há de mais erudito e inteligente
Na merda da cultura-pop,
Cujo prolixo manancial
Brota das profundezas abissais
Do esoterismo de cordel
E das conspirações fabuladas.

Pobres cabecinhas de alho-chôcho
Que nunca desfrutarão (de) boas leituras,
Enquanto prestarem culto às marcas
E vassalagem à publicidade corporativa

A superioridade no olhar dos trota-mundos;
É o grémio dos que se deslumbram
Com o topo iluminado das nuvens,
Enquanto os outros diminuem
Presos à gravidade sombria.

O que há de errado na educação
Que faz estes jovens
Sentirem-se o supra-sumo
Da evolução eugenista
(o execrável Darwinismo social),
sem necessidade de medrar
valores (não materiais)?!

Perscruto através do seu pudor
Em soltar as trelas da gargalhada
E dos carinhos em público,
E não os vejo felizes...

Até gosto das jóias coloridas que lhes iluminam o olhar
(Com fulgor mesmerizante, porém frio e inalcançável dos fogos fátuos);
E dos narizes delicadamente torneados;
E das pernas e dos pescoços longilíneos ;
E da textura sedosa dos cabelos (apetecíveis logo ao acordar);
E dos triângulos de sardas sobre os externos;
E dos seios ebúrneos que douram;
E dos púbis solares como espuma de champanhe;
E da informalidade polida,
E da emancipação juvenil
E da sexualidade libertária
(que rebenta, quase inodora, pelos poros
- Erógena biogeografia descarnada de mistérios e de afectos);

Tudo isto é sedutor
E quase compensa a vossa arrogância;
O egoísmo e o hedonismo fútil;
A entrega ao consumismo irresponsável;
O humor pouco apurado e a frieza pragmática

Porra, não me seduzam com fachadas Hollywoodescas,
Se escondem nas traseiras um ruinoso "muro das lamentações"!
[Tratado sobre cus e cus maltratados]
E como se deu essa tragédia
No código genético das nórdicas?!
(As que vivem para além dos Pirinéus; filhas do Atlântico Norte,
Mas insonsas de maresia e de saudade.)
Que sejam despigmentadas
Até pode ter alguma graça,
Mas porque carregam a maldição
De terem o cu espalmado e descaído?!
É daí que o corpo retira material
Para agigantar essas valquírias?
(As ancas parecem ter alargado e as nádegas tiveram que abater
Para acompanhar a expansão óssea.)
Será por parirem bebés enormes?
Será das porcarias que comem?
Será do peso de várias gerações
Debruçadas sobre balcões e secretárias?
Será uma piada de mau gosto da natureza,
ou de alguma deidade assexuada?
Será o sinal que precede o Armagedom?

A multiplicidade étnica que me corre no sangue
Não se compara à que se encontra no aeroporto
- Andam por aqui monumentos calipígios -,
Mas estou farto de esbarrar em decepções
Ao contornar as esquinas das ancas...

É como oferecer a um cristão fervoroso
Uma bíblia à qual arrancaram todas as páginas
Que continham promessas e visões do paraíso!
Disfunção eréctil e profanação do (osso) sacro.
Triste retrocesso na escala evolutiva
Em direcção a uma postura mais simiesca.
Não tendo o cerne das sequóias,
A coluna vertebral verga-se, amarrecada
E para que não cravem o marfim no chão
Sempre que erguem os corpanzis,
A bacia reajustou-se, invertendo a curvatura
E enfiando o rabo para dentro.
Por algum lado tinha que sair...
Assim, projectam-se os seus pélvis,
Dando um ar calão ao andar,
Demasiado assente nos calcanhares.
(De alguma forma, embora não imunes, as loiras de leste têm conseguido
escapar a este flagelo que ameaça a humanidade, no que à alegria de
viver se refere.)

Não adianta "carregarem pela boca", como gansos de fois-gras,
Tentando acumular gordura que as arredonde nos sítios certos
(As nádegas não são bossas de camelo!)
Isso apenas lhes dá o aspecto de amendoins pernaltas...
Até o desporto e os saltos altos são incapazes de vos arrebitar os glúteos,
Disfarçando a murchidão das vossas regueifas
Esqueçam os enxertos de silicone e as cuecas almofadadas,
E nem vale a pena sentarem-se sobre colmeias,
Ou sobre tonéis de pau-de-cabinda
Onde estejam conservados os tintins do Bocage...
Casos perdidos...
Dai um futuro mais risonho às próximas gerações,
Descartando o pedigree ariano e as ambições de manequim,
E deixando-vos fecundar por africanos ou por latinos baixotes, mas espigados
- A miscigenação é a solução e a pedra de toque da evolução!
(E, já agora, moderem a gula carnívora, banam as hormonas de
crescimento para o gado, bem como as farínhas-fermento para
bebés.)

Relacionam-se melhor com a gravidade
As colunas vertebrais de modestas dimensões.
A graciosa altivez das costas direitas
(Onde a língua percorre um leito à sua medida)
Ao aproximar-se da garupa da bacia pélvica,
Para compensar o peso das mamas,
Curvam em sela,
(Que anelamos nas potras indómitas
que nos arrastam para a insanidade
Da felicidade forçada nos orgasmos),
. Assim, os protuberantes atractivos
(dianteiros e traseiros)
Sobressaem, gloriosos,
Para deleite dos apreciadores

Adoro a subtileza indefectível
desse bamboleio saltitante
(Sem coreografia de passerelles)
Que acaricia o solo com a ponta dos pés
E emana poesia erótica,
Sem espaço para a metafísica,
Nem para a hesitação na caçada.
Ó maldita aeronave
(Que foste conjurada no hangar dos meus pesadelos)
Leva-me de volta ao Sul - já!
Quero a minha vida alegrada
Ante o deslumbre concupiscente
De bochechas firmes,
Arrebitadas e dançarinas,
Gostosas e generosas
Como o sol de lá.

A luta com Morfeu arrastou-me
Para um terreno pantanoso,
Onde me entreguei
A um jogo perigoso
- Cuidado com as generalizações preconceituosas!

Um balcão de créditos é o primeiro a abrir.
Em breve os aromas do café e da comida rápida
Disfarçarão o hálito matinal do aeroporto
Que tresanda a combustível queimado,
Rodeado de motores que aquecem
com um ronronar estremecedor.
O fumo do tabaco ainda chateia no ar sem fronteiras,
Mas os prevaricadores são empurrados para um canto
- O civismo nórdico quer tratar-lhes da saúde!

O negrume acinzenta-se lá fora.
(É isto que a Inglaterra tem para oferecer a um experiente caçador de
auroras?! Estamos em Junho, que diabos!)
Surgem pardais que roubam migalhas,
Ludibriando um sistema de segurança
Capaz de frustrar(?) terroristas.
As gralhas são mais espertas e descaradas,
Mas a sua notória corpulência trai-as.
O feudo delas são as imediações exteriores.
Contrárias ao civismo e à higiene,
Preferem os turistas-espalha-lixo
Que, se forem convocados pelo sol,
Irão deitar-se no relvado
(O resquício de verde que não foi usurpado pelos automóveis.)

O que há de interessante aqui?
O êxodo elitista dá-me a resposta.
Os meus olhos andarilhos
Cansaram-se de ver
A ubiquidade da chuva e do tijolo-burro;
Rebanhos mansos, pastos verdes e rios negros;
Devotados jardineiros e observadores de aves
(Todos chapinhando com botas de borracha);
Carvalhos de muletas, cães de quarentena e gatos à janela;
Táxis bizarros e condução pela esquerda;
Pontualidade doentia em bilhetes suicidas;
Chá com farrapos de leite;
Escopófilos e apostadores (e correm futebolistas, cães e cavalos),
Alcoviteiros profissionais e Leitores de pasquins;
De miúdos pedantes com dentes de cavalo;

Saudosistas excêntricos e realeza de puteiro;
(O sangue azul dos caranguejos que defecam pelo focinho)
Flibusteiros corporativos e lojas globalizadas
- O dinheiro é o dominador comum!
Sonho de refugiados e fortaleza de hooligans;
Onde a qualidade da gastronomia equivale à da hospitalidade
(« E venha lá mais uma dose de peixe com batatas fritas! Please, Sir…);
Cavilagem maquilhada e cabeleiras berrantes;
Tribos urbanas, piercings e tatuagens
no rendez-vous das câmaras de vídeo vigilância;
Gravatas combinadas com brincos;
Escravidão assalariada e festas enlatadas (sem horas vadias)
Músicos alcoolizados e idealistas castrados...
...Tudo tão inútil quanto esta diatribe satírica
Mal disfarçada de poesia
- Aqui nunca verão a minha nudez
Exposta na feira das vaidades
- Onde só se ouvem pregões na língua do império

A fauna diurna começa a chegar aos magotes.
Produzem-se até à postura
E trazem crianças pela mão.
São mais obcecados
Com a aparência e com a segurança
E podem pagar o conforto das camas.
Só quando partem se vêm obrigados a partilhar
O espaço vital com os noctívagos pelintras,
Tornando, assim, a vida real.

Grifo
Paulo Alexandre Barreiros Neves

 

A Escola-Estado-Empresa ou Revoluções nos Baldios

Reorganizando-se, o arquivo defeca
Fichas de adolescentes escolares
Num baldio
Nas suas fotos, as expressões forçadas
Não escondem o olhar consternado
Ante a morte prematura.
Holocausto virtual. Não importa.
A tragédia é a das consciências
Suprimidas e formatadas
Pela e para a Megamáquina.
Osmose cibernética
- Da escravidão.
Estuprados pela indiferença e
Famintos de verdade
E de justiça, escancaramos
As bocas e os olhos,
Oferecendo aos desesperados
A caixa de ressonância
Dos nossos peitos
(covil de esqueletos,
que são diapasões
de cristal puro
prestes a estilhaçar-se...)
Para que em nós ecoem
Os seus gritos mudos

Fujam para a floresta,
Meus meninos!
A tribo dos vivos conscientes
Está dispersa, enfraquecida,
Mas ainda celebramos
Mitologias vivas
Epistemológicas
Iconoclastas
Ainda fazemos amor
Para além dos corpos;
Ainda nos aquecemos ao redor
Da pira das paixões-idealistas!
Não temos uma terra prometida,
Temos as unhas ensanguentadas
De afiar lanças-libertárias.

Montês
Paulo Alexandre Barreiros Neves

 


 

Participantes até aos 12 anos

Um Amigo

Um amigo é precioso
È um bem maravilhoso.

È lindo como a magia
È uma vida de alegria.
Ter um amigo
È um sol que brilha sempre no mundo da amizade
São borboletas que voam no mundo da liberdade.

Um amigo é para brincar
Mas não é para brigar.

Luka
Ana Filipa Pepino Vassalo

 
Loja de Bonecas

Pareciam tão bonitas,
As bonecas que na loja espreitei,
Já foram todas vendidas,
E eu com nenhuma fiquei.

Afinal o dinheiro que poupei,
Para com uma boneca ficar,
Já não serve para aquilo,
Que eu queria comprar.

Quando voltei à loja da "Bonecaría",
Triste, e fui outra coisa comprar,
Deu de caras no corredor com uma alegria,
Era uma das bonecas que eu não esperava encontrar.

Comprei-a toda contente,
Por ter conseguido o desejo realizar,
Mas pensei nos pobrezinhos e como seria um belo presente,
Por isso resolvia dar.

Maria Agripina
Francisca Machado Nunes Sassetti

 

Namorar

Nem toda a gente,
Sabe o que é namorar,
Que palavra tão impaciente,
Não dá um tempo para esperar.

Namorar não é beijar,
Namorar não é dar uma flor,
Namorar é acreditar,
Acreditar no verdadeiro amor.

Namorar não é ofender,
Namorar não é um momento de tormento,
Namorar é sempre ter,
Ter o verdadeiro sentimento.

Namorar não é "sair",
Namorar não é dar a mão,
Namorar é um sorrir,
Sorrir vindo do coração.

Nem toda a gente,
Sabe o que é namorar,
É uma palavra que mente,
E escolhe um amor para amar!

Maria Agripina
Francisca Machado Nunes Sassetti

 



Participantes dos 12 aos 18 anos

O meu mundo

O meu mundo de confusão
Onde nada de bem acontece
Acontece o mal
O meu mal

Neste mundo de terror imenso
Onde tudo de mal me acontece
Onde o amor não aparece
E o ódio me endoidece

Não sei como acabar
Com esta confusão
Não há um bom caminho no meu coração

Um caminho que me leve
Para um bom mundo
Como o da paixão

Carqueja
Rodolfo Manuel Machacaz Colhe
 

Aquele que não sou (para um bom amigo)

Tenho pena de não ser como alguns
Que têm quem querem
E tem quem eu quero
Mas esse alguém
E meu amigo, um bom amigo
Um galã inteligente
Mas sem amor
Admito que mais atributos que eu
Mas ele não tem algo que eu tenho
O meu eu

Maria Albertina
Rodolfo Manuel Machacaz Colhe

 

Traição

Porque a traição
Porque não me mataste logo?
Se já destruíste uma das minhas melhores partes
Tanto eu te queria
Tanto te quis ter
Agora não
Nada mais há a dizer
Que a desilusão
Não se mostra em normais e fúteis palavras
Mostram-se em actos
Mostram-se neste poema

O Russo
Rodolfo Manuel Machacaz Colhe


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